Flores Chácara Santo Antonio
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Um pouco sobre a história do bairro da Chácara Santo Antonio
Como
surgiu e cresceu a Chácara Santo Antônio, onde casas com janelas que dão para
calçada contemplam escritórios de alto padrão
Segunda-feira, sete e meia da manhã. Terminou mais um fim de semana de paisagem deserta e silenciosa. Nas ruas estreitas de paralelepípedos, carros passam apressados sem dar vez a pedestres. Donas de casa lavam calçadas e idosos passeiam com seus cachorros. Singular paisagem, a da Chácara Santo Antônio, onde nos dias ditos úteis executivos de terno e gravata se misturam a pacatos moradores do bairro. Uns e outros por vezes se cumprimentam no momento de desviar dos postes plantados nas calçadas. Modernos prédios de escritórios dividem quarteirões com residências construídas sem recuo, e estas, por sua vez, se revezam com o pequeno comércio nas ruas de tráfego mais intenso. Mais um lugar de São Paulo que ilustra constatação feita há mais de 70 anos por um de seus filhos mais ilustres, o escritor Antônio de Alcântara Machado: “Aqui as casas vivem menos do que os homens. E se afastam para alargar as ruas. Nem há nada acabado, definitivo”. Essa Chácara não é uma só. São várias. Muita mistura, numa área que abriga três tipos de zoneamento. Variedade ou indefinição?
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O
bairro é
formado
por partes de antigos sítios.
proprietário
que lhe inspirou o nome: Antônio Domingues de Borba
sítios
Castelhano e Cordeiros,
dois
outros sítios, um na Boa Vista
outro
em Santo Amaro.
O
arruamento foi iniciado em 1924 pela então proprietária, Maria Augusta
Martins. uma das 54 “Chácaras”
que existem na cidade de São Paulo
três das quais se chamam Chácara Santo Antônio.
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Pelas
contas dos dois distritos policiais que o atendem, há no bairro
3.020
residências,
1.485
lojas de comércio,
182
indústrias,
21
escolas
126
pontos prestadores de serviços (oficinas mecânicas e afins)
num
espaço de 1.451.200 metros quadrados do Lote 16, lavrado no 1º Cartório de
Registro de Imóveis, em 5 de novembro de 1934, como o início do loteamento das
terras que se transformaram no que é hoje a Chácara Santo Antônio.
O
contorno do mapa da Chácara Santo Antônio começa
na
Avenida Santo Amaro, bem em frente à estátua do Borba Gato
Segue-se
até a Rua Verbo Divino, que termina na Marginal do Pinheiros
Da
Marginal se continua até a Rua Engenheiro Mesquita Sampaio
de
onde se toma o sentido da volta à Avenida Santo Amaro
Dobra-se
à esquerda na Rua Amaro Guerra até chegar novamente à Avenida Santo Amaro
bem
na esquina da praça que leva o nome de Ruy de Amorim Cortez, advogado que foi
subprefeito de Santo Amaro e, em 1954, trouxe o calçamento para o bairro com a
colocação de paralelepípedos na Rua Américo Brasiliense, no trecho que vai
da Santo Amaro até a esquina com a Rua Pires de Oliveira, onde fica a Drogaria
Antares, a mais antiga do bairro.
“Era o homem mais bravo de Santo Amaro, andava de bengala na mão”, define dona Maria da Conceição Machado Cortez, que nasceu no bairro – filha de outro homem que virou nome de rua, o capitão Otávio Machado, dono de cartório –, casou-se com Ruy de Amorim Cortez e criou seus seis filhos na enorme casa rodeada por árvores e jardins onde vive até hoje. Um deles foi o ator Raul Cortez, que frequentava barbeiro, fotógrafo, pedicure e casa lotérica na Chácara. “Não me afastei nunca de lugares e pessoas que me marcaram”, afirma o ator.
O
calçamento da Américo Brasiliense causou polêmica. Terminava pouco depois da
casa da família Cortez e acentuou o que o advogado Pedro Cortez, irmão de
Raul, define como a característica mais marcante do bairro: “Na parte de
baixo, próxima da Marginal do Pinheiros, originalmente um charco, instalaram-se
indústrias e casas de operários. Na parte mais alta, livre de enchentes, os
lotes foram comprados por famílias de renda mais alta”. Dona Maria da Conceição
conta que ouvia moradores do bairro comentar que seu marido, então subprefeito,
havia mandado calçar apenas a área onde estava a própria casa.
A Chácara Santo Antônio, assim como outras partes de Santo Amaro, havia sido
um aprazível recanto onde moradores da cidade de São Paulo passavam férias de
verão. A inauguração, em 1886, da linha de trens a vapor, onde é hoje a
Avenida Vereador José Diniz, transformara o local em passeio da moda. Era a época
do arraial de casinhas baixas, pintadas de cores vivas e quase todas da mesma
altura, com poucas ruas largas de terra batida. Muitas dessas imagens – ou
relatos delas – foram transportadas para telas pelo escultor e pintor Júlio
Guerra, 88 anos, nascido em Santo Amaro, e autor da estátua do bandeirante
Borba Gato.
Ele estudou Belas Artes, trabalhou com Brecheret. Mas, desde os 14 anos, era
quem atendia os caipiras, no Largo 13, no bilhar do pai, seu Narciso Guerra.
Conta que os caipiras só vinham para a cidade em ocasiões especiais: para
vender suas mercadorias e nas festas do Divino e da Semana Santa.
– A grande alegria deles – conta – era chegar em Santo Amaro e pegar o
bonde para ir para São Paulo. Não podiam entrar descalços no veículo. Por
esta razão, no bilhar do meu pai, alugavam botas para calçar. Mas era só os
danados chegarem na Praça da Sé que tiravam os calçados e os penduravam nos
ônibus. Daí que os santo-amarenses passaram a ser conhecidos como os
“botinas amarelas”.
Substituídos
pela Cia. Light, os trens deram lugar aos bondes, mas os preços das passagens
– 700 réis na primeira classe, 500 na segunda – foram mantidos até 1947. A
linha do bonde ia até o Instituto Biológico e a parada local era a Alto da Boa
Vista. Nos anos 50, na onda da indústria automobilística, começaram a surgir
linhas de ônibus que passavam na Avenida Santo Amaro.
–
A maioria das ruas não era asfaltada, ainda existiam lagoas onde as crianças
brincavam, arroz de brejo, um só empório na esquina, apenas um ônibus, o 79,
fazendo a ligação do bairro com a cidade – relata dona Dilva Aparecida dos
Santos, que morou 16 anos na Rua Alexandre Dumas e há quase trinta mora na Rua
Paes Silva. Só em 1957 surgiu a primeira ramificação de ônibus que cruzava o
bairro pela Américo Brasiliense e tinha como ponto final a fábrica de
bicicletas Monark, junto à Marginal do Pinheiros. Os bondes pararam de circular
no final de 1966.
“As casas eram poucas, a gente podia contar nos dedos”, relembra Martins
Gomes da Silva, 74 anos, nascido no interior do Estado, que veio estudar farmácia
na Universidade de São Paulo em 1945. Pouco depois foi morar no bairro e
trabalhar na Drogaria Antares. Martins conheceu o dono da Chácara Almeida, que
deu origem à vizinha Granja Julieta, Manuel Justino de Almeida. “Ele tinha um
zoológico particular, com onça-pintada, urso e antílopes. Quando resolveu
lotear o local, os filhos só concordaram se ele colocasse o nome da mãe,
Julieta.” E assim se fez o bairro vizinho, mais nobre, de ruas tortuosas que
ajudam a manter seu caráter essencialmente residencial.
Ruas alinhadas e lotes quase planos depois do aterro. Na Chácara Santo Antônio,
as ruas que saem da Avenida Santo Amaro em direção à Marginal do Pinheiros
formam praticamente uma linha reta. A mais movimentada de todas, a Américo
Brasiliense, tem um quilômetro e oitocentos metros. As fábricas – entre elas
Niagara, Timken, JC Marques e Paramount Lansul – proliferaram a partir dos
anos 50 e 60 e trouxeram para perto seus operários, que iam ao trabalho de
bicicleta ou a pé, e a feição proletária dos sobrados pequenos e casas
geminadas. Com as indústrias também se expandia o pequeno comércio, a maioria
em sobrados nos quais lojas ocupam o piso térreo e no andar de cima fica a
residência do dono, numa configuração que permanece até hoje, agora
recortada pelos prédios de escritórios.
A Chácara Santo Antônio da época unia operários e jovens do lado alto do
bairro, o lado rico. O time da Chácara era o Brasileirinho, formado por jovens
como Ruy, irmão de Raul e Pedro Cortez, que jogava contra o Benetê, o dos operários
da Beneficiadora Nacional de Tecelagem. Mas rival mesmo era o Floriano, que
ficava na Rua Bela Vista – fora dos limites do bairro. Nas tardes de domingos,
as moças se assanhavam para ver passar os moços bons de bola. Ficavam mal-faladas,
mas não tão mal assim. O Brasileirinho chegou a eleger a Rainha do
Brasileirinho, Iracy Barbosa (prima da mulher de Ruy Celso Machado Cortez, Márcia)
com direito a festa na casa chique onde funciona agora a Clínica Granja Julieta.
Para flores Chácara Santo Antonio, use os serviços da Floresnaweb.
Locais
por onde hoje circulam homens de negócios e seus funcionários ganham ares de
nostalgia na visão de quem, como Pedro Cortez, viveu por aqui toda a infância.
Quem poderia imaginar que a Rua Vitorino de Moraes causava medo aos meninos? Era
a “rua do enforcado”, margeada por pés de eucalipto e onde um homem havia
se suicidado. O prédio do Colégio Pueri Domus, na limítrofe Verbo Divino, era
o convento dos padres que deu nome à rua, o Seminário Verbo Divino. A primeira
paróquia foi erguida na Rua Alexandre Dumas, na parte mais pobre do bairro.
Depois veio a Capela da Sagrada Família, construída com eucaliptos, destruída
pelos cupins e reconstruída no mesmo terreno, na Rua Américo Brasiliense, na
parte alta.
O bairro começou a mudar com a chegada dos primeiros prédios de escritórios
na região. Prosaicas conversas sobre o preço de flores, frutas, legumes,
hortaliças e garrafas vazias que antes enchiam o cotidiano pacato dessa gente
chacareira foram substituídas pelo dialeto de homens com gravatas e ternos de
grifes famosas, que falam de derivativos, e-commerce, o câmbio do dia, capital
volátil e globalização. Eles invadiram restaurantes que surgiram da noite
para o dia, de olho na clientela endinheirada. Vieram junto a violência do
roubo de carros, dos seqüestros-relâmpagos e dos homicídios. Nas ruas de aparência
pacata, carros com tecnologia de ponta e logotipos vistosos substituíram as
carroças dos primeiros donos do pedaço. Permanecem carroças de catadores de
papel, numa cidade que proibiu o uso de veículos de tração animal mas não
impediu que homens carreguem peso nas costas, no lugar de burros e cavalos.
A partir da década de 70 surgiram edifícios como o Cesec, do Banco do Brasil,
o da empresa de engenharia Jaakko Pöyry – ambos localizados na Rua Verbo
Divino e inaugurados em 1977 – e o Edifício Nova São Paulo, na Rua Professor
Manuelito Ornellas, que nos primeiros anos abrigou a sede da Autolatina, holding
que representava a fusão entre a Volkswagen e a Ford no Brasil, desfeita em
1995. E o que é hoje o marco da Chácara Santo Antônio ultrapassa as ruas limítrofes
do bairro, chegando à Avenida Alfredo Egídio de Souza Aranha: o São Paulo
Office Park. Este é o nome extra-oficial outorgado pelo mercado imobiliário ao
conjunto de 47 prédios comerciais localizados no bairro e em ruas vizinhas, num
total de 300 mil metros quadrados de área útil.
A maioria destes prédios é de alto padrão. Dos 47, só seis não têm
ar-condicionado central. Um dos primeiros empreendedores a descobrir o potencial
de atração de grandes empresas em escala, a maioria multinacionais, foi Rafael
Birmann, presidente da empresa que leva seu sobrenome, que comprou do Crefisul
um terreno próximo ao que abriga o primeiro hipermercado Carrefour do Brasil,
na esquina da Marginal do Pinheiros com a Rua Alexandre Dumas. Prédios baixos,
com lajes acima de 800 metros quadrados, passaram a ser construídos em terrenos
antes ocupados por galpões de fábricas que foram desativadas ou buscaram
instalações fora da capital. O primeiro a ser inaugurado foi o da Becton,
Dickinson, em 1985, na Alexandre Dumas, esquina com a Rua Amaro Guerra.
A Amcham está na Chácara Santo Antônio há 15 anos. Mudou-se da primeira sede,
na Rua Formosa, Centro, para ocupar um andar alugado no mesmo prédio da Becton,
Dickinson. Com o crescimento do número de associados, decidiu construir uma
sede própria, que ocupa o quarteirão formado pelas ruas da Paz, Antônio das
Chagas, Branco de Moraes e Rodrigues Paes.
Vistoso, mas sem agredir o peculiar entorno, o prédio de dois andares, distribuídos
por 2.800 metros quadrados, foi inaugurado em outubro de 1997 pelo presidente
dos EUA, Bill Clinton, que ali fez o único discurso dirigido à comunidade
empresarial durante visita ao Brasil. O terreno era ocupado por uma antiga
oficina mecânica da Mercedes-Benz. Dessa construção industrial pesada surgiu
um dos mais modernos espaços empresariais do Brasil. Um centro produtor de idéias
e iniciativas.
Aos descendentes de portugueses, espanhóis e alemães que ocuparam as chácaras
nos primórdios do bairro vieram misturar-se, durante o dia de trabalho,
profissionais de vários tipos. Estão na área empresas como Deutsche Bank,
Eletropaulo, Dow Química, Chase Manhattan, Oracle, Philip Morris e Arthur
Andersen. Com toda essa gente nova andando pelas ruas, a demanda agora é por
serviços. Apenas no ramo de hospedagem o bairro ganhará nos próximos cinco
anos 2 mil unidades de flats, divididas em cinco prédios. “Este tipo de ocupação
força a criação de uma infra-estrutura de serviços, como restaurantes de boa
qualidade e clínicas médicas e odontológicas”, afirma Paul Weeks, diretor
de pesquisa da Cushmann & Wakefield Semco.
A nova gente que circula pelo bairro não o conhece direito. Alcimar Vrulsky é
engenheira de computação e presta consultoria a três empresas instaladas no
Condomínio Paramount, na Alexandre Dumas. Há dois anos, atendia apenas um
cliente e vinha à Chácara Santo Antônio uma vez por semana. Agora vem
diariamente. “Nunca tive curiosidade de conhecer o bairro. Achava as ruas
muito feias. Acabei conhecendo um pouco na hora do almoço. Não é tão ruim
quanto eu pensava, mas não é um lugar para se caminhar. As calçadas são
estreitas e inclinadas. Não tem atração alguma para mim”. Oswaldo Ferreira
Bicho, diretor de Negócios da Unisys, trabalha há um ano e meio no bairro e
reclama da falta de infra-estrutura. Algumas ruas, constata, cheiram mal, o que
ele atribui à má conservação dos esgotos.
A proximidade do MorumbiShopping ameniza a falta de serviços nas ruas do bairro,
que, como ocorre em toda região que se expande, se tornaram estreitas e não
comportam o volume de trânsito atual. Na avaliação de Birmann, a prefeitura
deveria obrigar o aumento do recuo nas novas construções, permitindo a
abertura de ruas mais largas. “No início da noite, quando assisto tevê,
sinto a sala tremer. Fizemos um abaixo-assinado para a Prefeitura, pedindo a
substituição do paralelepípedo pelo asfalto”, diz a dona de casa Wilma
Lamboglia, moradora da Rua da Paz, enquanto, por trás do portão, conversa com
a vizinha. “Ainda existe muita amizade”, atesta Maria José Guimarães, a
vizinha.
A evolução virá no tipo de moradia. Pequenas casinhas de telhado meia-água cederão lugar a prédios residenciais de médio e alto padrão, mas aos poucos. Novos prédios comerciais continuarão surgindo, mas não com a mesma velocidade dos últimos 15 anos. Ainda assim, deverão ser pequenos se comparados aos hoje ocupados por multinacionais. É que para construir seus edifícios de escritórios os incorporadores terão de comprar casinha por casinha de cada quarteirão. Esse movimento faz subir o custo do terreno, é trabalhoso, e, ainda por cima, o último dos vizinhos vai querer vender caro seu lote.
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